terça-feira, 31 de janeiro de 2012

8hs

Há tanto tempo que não forçava minha mente a reavivar certas lembranças. Confesso que muitas dessas, quando assim faço, são as piores - e, se algum dia, alguém entender o por quê de um pobre velho como eu gostar de (re)sentir sua dor, por favor, avise-me.

Ela me beijou como sempre beijava antes de dormir (é incrível como uma mulher consegue fazer isso tão apaixonadamente depois de tantas e tantas décadas). Eu a olhei dormir, com aquele inspira-expira tão vagaroso, como sempre amei admirar. Era a nossa tradição noturna. Tão sistemática. Tão rotineira. Tão amável.
Eis que meu tão infalível relógio biológico me acordou, dando início ao desinteressantíssimo ritual matinal que mal ouso a descrever. 
E essa manhã ordinária pareceu nunca encontrar seu fim. O sol continuava estagnado, sonolento por entre as seis da manhã. Até que o meu leal relógio, sussurrou-me.
O ritual, enfim, foi quebrado. A tradição mantida fielmente todas as manhãs tinha sido rompida. Assim, minha alma.

E o que um velho como eu, que pouco tem a fazer no seu dia a dia, faz aqui, escrevendo em seu tão velho, tão querido bloco?
Ainda espero o Sol despertar, às oito, acordando consigo a outra parte de minha alma que lá ficou adormecida, respirando tão lentamente como nunca se cansara de fazer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011




Eu, como um medíocre narrador, e mais ainda, como um pobre admirador de cenários que nada fazem parte de minha vida, confesso que, há uns dias, assisti a cena mais bela de minha vida.              
De amor, eu evito ao máximo falar. Afinal, para que narrar histórinhas que tantos já estão cansados de ler? Gosto de ter minhas palavras admiradas, não lidas de forma corriqueira e, inevitavelmente, esquecida num piscar de olhos. Não. Estas devem ser contempladas, assim como qualquer outra. Perdoem-me a distração, mas a questão é que aquele casal, de fato, prendeu o meu olhar.
Quem passasse por ali, talvez, pouco perceberia o casal... ordinário (Mas que calúnia!). Pobres pessoas distraídas, mal sabiam o que perdiam.
Sentados, inexplicavelmente, dançavam ao som de uma suave melodia que estava sabe-se lá onde. Estaria eu ficando louco? É isso que pensa? Imagina! Mas eu vi, e somente eu, enxerguei a simplicidade e a vontade de acompanhar a tal valsa através daqueles dois sorrisos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Duvido um pouco.

Eu não entendo.
Algumas pessoas (de bom coração) dizem admirar a minha forma de escrever (e neste momento eu me gabo por alguns instantes).
Mas logo depois, chego a duvidar.
Afinal, todos, de certa maneira, conseguem escrever.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Até um dia.

Uma vez, desisti de escrever. Simples assim.
Não que fosse falta de... Como se chama mesmo? Me fugiu a palavra. Bom, ideias, talvez, não faltavam. O que faltava mesmo era vontade.
As palavras vinham, mexiam comigo e ficavam em minha volta para ver até quando eu aguentaria, mas eu ficava sem reação, olhando o papel de longe, achava-o mais bonito como estava: vazio... Me dizia tão mais.
Acho que não era eu. Ainda não entendo o que de fato aconteceu naqueles tempos.
Nunca descobrirei.

Se eu voltei a escrever? Duvido.
Mas as vezes eu sinto falta, o que me leva a rascunhar algumas bobagens, mas palavras, ficam bravas comigo e não gostam de ser desperdiçadas assim, em vão.



Sim, estou passando por um período sério de abstinência de escrita. Talvez seja uma fase, talvez não, quem sabe?
Mas desse mundo eu não sairei. Eu o meu caro amigo Bertonie, começamos um blog sobre cinema, literatura, música e derivados (existem?) - algo nada muito complexo, apenas para distrarir. Espero que gostem!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Amélia

Amélia era uma moça de olhos escuros. Olhos pelos quais não eram fáceis de se esquecer, ficavam na memória e durante algumas noites assombravam alguns corações solitários, porém logo desapareciam durante dia - e poucos sabiam para onde iriam.
Mas, para ser sincero caro leitor, Amélia pouco cuidava de seus olhos Capitu - como alguns ousavam os chamar. O que ela realmente gostava era de seus cabelos.
Nada era mais prazeroso do que deixá-los crescerem durante meses, cultivando cada fio dourado como um frágil amor e então, como alguém sem misericórdia, meter-lhes a tesoura. Ah! Como gostava de ver todas aquelas madeixas espalhadas pelo chão, intactas, fadadas apenas a refletir a luz que ali estava até alguém passar uma vassoura antiga.
Amélia era assim, impresivisível. Uma jovem que pouco reparava nas coisas, andava distraída por olhar os detalhes que poucos notavam nas ruas e a cantar desafinada alguma canção que sua mãe lhe ensinara na infância.
E assim, me sinto obrigado a confessar que, caso em um dia, algum ser desprovido da vergonha lhe elogiar seu olhar, ela ficaria surpresa, pouco esperaria por tal ato. Mas logo esqueceria e voltaria para casa, mexendo em seus cabelos, ansiosa por cortá-los mais uma vez.