quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Palavras Cruzadas

O calor que entrava em seu corpo já estava tão insuportável quanto o barulho que o ventilador insistia em fazer a noite inteira.
Pensar no vazio, tentar resolver algumas questões de álgebra mentalmente, contar aqueles malditos carneirinhos – só estava a deixando mais acordada ainda.
E mais rápido do que pensou, sentou-se e ficou a encarar a escuridão que a cercava. A cada minuto que passava o quarto parecia clarear-se pelas luzes de fora, mas não se iluminou por inteiro – um fato totalmente previsível. Diante desta pequena frustração decidiu sair no meio da noite, afinal, nada de surpreendente poderia acontecer as 2h58 numa cidade daquele tamanho. Cidade?
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Saiu sem trocar o seu pijama cinza de bolsos verdes (!) totalmente inúteis e com seu tão confortável par de chinelos. Andou, não muito, diga-se de passagem, até encontrar uma padaria/boteco com seu letreiro neon pisando freneticamente.
O lugar estava vazio, a não ser pelo senhor de cabelos falsamente castanhos, barba a fazer e uma caneta atrás da orelha.
- Bom, nada muito ameaçador, eu diria – Ela sussurrou para si mesma.
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Sentou-se diante do balcão, onde aquele homem se dedicava em fazer as palavras cruzadas em um jornal deixado por um cliente. Ela o observava, mas não como algum objetivo, somente por olhar e nada entender, até que notou que usava outra caneta em sua mão, mas esta parecia ser diferente, ele a manuseava com cuidado como se fosse uma raridade. Achou engraçado o senhor que, sem querer, anulava toda a função de sua orelha esquerda e disse, esticando o pescoço.
- E-G-O. “O ‘eu’ de cada um”
Ele levantou os olhos tentando disfarçar a surpresa de ver alguém àquela hora da madrugada.
- Tem certeza? Isso me parece “Meu”.
- Mas não faz tanto sentido assim quanto ego! – Disse com uma risada escondida em seus lábios.
- E desde quando as coisas nesta vida fazem sentido, minha filha? – Respondeu o velho com uma cara um tanto ranzinza
- Ah... É... Tem razão, mas... – Ela bem que chegou a pensar em explicar a ele que em cruzadas, as palavras deveriam ser corretas, caso contrário...
- É, mas eu sei que palavras cruzadas são a exceção, não? – Disse o senhor como se estivesse lendo sua mente – Vai um pingado?
- A essa hora?
E o velho soltou uma gargalhada desleixada, mas mesmo sem entender o seu por que a menina riu – mas não pelo o que tinha dito, mas pela engraçada risada em que ouvira.
- Não é pinga não menina! Café com leite – disse bem pausadamente, com medo dela não entender.
- Oxe. Mas quem é que fala uma coisa dessas hoje em dia?
- E me diga quem, de uma cidade grande, se expressa com oxe?
Ela corou nostalgicamente, lembrando em frações de segundos todas as pessoas que diziam isso dela e depois de uma risada respondeu:
- É, verdade. Você venceu. Pode me dar esse tal de pingado aí.
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E durante a noite, conversaram sem muito se importar com a estranheza dos assuntos. Dividiam experiências que, de alguma maneira, ambos pareciam já ter vivido. Se tornaram amigos de tanto tempo, sem nem ao menos saber o nome um do outro.
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- Mas me diga moça - introduziu o velho passando pela quinta vez um pano úmido no balcão – o que faz aqui nesta...
- Cidade?
E os dois riram pelo mesmo motivo que nenhum morador fiel ousaria rir.
- Exatamente! Hunf... Cidade! Vê se pode.
-Descansar, sabe? Pôr as idéias no lugar e tudo mais.
- Ih, já vi tudo. Foi o namorado, né? Não? Brigou com a mãe? Pai? Amiga? Hm... Primo? Com quem minha filha? Diga...
Ela não respondeu de imediato. Não que a resposta exigisse um tempo de raciocínio, mas ela pensou por alguns instantes que sentia certo afeto quanto o velho, instintivamente, a chamava de minha filha. Então tornou a olhar seu rosto, suas expressões, os óculos redondos anos 60 não o deixava com um ar de mais velho, pelo contrário; mesmo com aqueles fios brancos que, teimosamente, sempre apareciam nos lados e algumas (várias) “marcas de expressão”, ele passava a ela uma impressão de jovem. Gente pronta para viver.
- Hein minha filha? Se não quiser desabafar não precisa não.
- Que isso! Não aconteceu nada demais, decidi, apenas, tomar um tempo pra mim, apesar do tamanho, é bom estar aqui.
- Ô se não é.
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E finalmente o silêncio entrou no lugar, acompanhado de fracos raios do Sol nascente. Ela olhou para traz e viu como o céu estava bonito, tão singelo.
- Tão acolhedora essa imensidão azul, não? – Pensou alto o velho.
Mas desta vez ela não se assustou por, mais uma vez, ele ter completado seus pensamentos e apenas sorriu, concordando. O relógio tocou marcando seis horas.
- Minha filha! Você nem pra dormir! E agora?
- Ih, já até me acostumei. Mas é verdade, preciso ir.
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Levantou-se devagar pensando na hipótese de um abraço forte entre amigos ou somente um aperto de mão. Ao se virar desistindo de qualquer demonstração de carinho, ele a chamou:
- Ei moça! Toma aqui essa cruzada, presente meu, termine por sei que você faz rapidinho, né minha filha?
Ela sorriu, pegou o pedaço de jornal e dobrou. Olhou mais uma vez ao seu tão novo querido amigo.
Ambos queriam agradecer e concretizar tudo o que sentiam em ter tido uma companhia tão agradável naquela noite típica de verão – simplesmente não conseguiram. Ele levantou a mão se despedindo de forma amigável e ela, novamente, sorriu, sem trocar uma palavra desta vez.
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Pegou o caminho de volta e olhando para o papel em suas mãos o abriu na esperança de encontrar algumas palavras escritas – mas não; da mesma forma continuou alegre pelo que passou; dobrou o jornal pela última vez e o guardou em seus bolsos verdes – e até que eles não eram tão inúteis assim.

Você acabou de ler - se leu tudo mesmo - 977 palavras rs

8 comentários:

Anônimo disse...

A vida é assim mesmo. Algumas coisas não tem explicação, elas simplesmente acontecem :)

Debbys disse...

ai, adorei ow.. e eu adoro palavra cruzada... simpatizei mt com o velhinho (se eu posso mesmo dizer "inho") do bar... ^^
bjssssss

Tânia disse...

obaa.. 977 palavrinhas que me fizeram um bem enorme..
histórinha tao simples, mas cativante. adorei mocinha.

beeijos.

Marina Melo disse...

Eu também amo palavras cruzadas *-*
Nossa, eu vi que você foi uma das poucas que não abandona mesmo eu blog hein!
Já eu...to bem sumida.
Tempo que não passava aqui no seu, lembro que eu sempre fazia uma visitinha.

Beijos.

Tamires Buliki. disse...

E é nessas coisas e ocorrências simples e, aparentemente, insignificantes do dia a dia, que encontramos as maiores alegrias! (=
Beijo, querida.

Renan Mendes disse...

Quando eu penso que não posso me surpreender contigo, tu me escreves um texto desses. Perfeito!

YUHUL!

Marie Raya disse...

Thaís, seus textos são sempre surpreendentes! Eu amo palavras cruzadas e devo confessar que todo texto que inclua hábitos em comum com os meus me encantam! Adorei sua irreverência e achei o final super fofo e de impacto. Escreva mais textos assim :*

Eu, a Vanessa Marques disse...

é essa simplicidade q faz a vida ter sentido

e adorei o comentário final informando qtas palavras li

bju

http://qrolecionar.blogspot.com