quarta-feira, 29 de junho de 2011

Ah, Marília!

Se olhava naquele espelho pequeno há tanto tempo que esquecera, por alguns instantes, o mundo que existia para fora da janela.
Recontando suas sardas, mais uma vez - mesmo não gostando de todas aquelas manchas um tanto dispensáveis, tinha uma maior sensação de poder sobre as mesmas. Bobagem!

Marília, se pudesse, mudava seu nome sem pensar muitas vezes; gostava de tantos outros, menos Marília e justo com o que ela fora... presenteada. Falta de sorte - era o que dizia seu mantra.

Mas uma coisa que nunca mudaria, eram seus olhos, aqueles responsáveis pelo tão clichê "janelas da alma". Aquele castanho brilhava, era diferente dos demais, quem os visse, raramente, voltava a dizer que somente olhos azuis eram os belos. O que ela não sabia era que seu olhar, era o que marcava; olhar sincero, tão difícil de esquecer tamanha simplicidade.

Ah, Marília. Sempre dizia que sabia; nunca esquecia de nos contar uma história se quer. Reclamando a cada manhã, se desculpando em todo o entardecer.
Ah, Marília! Tão velha alma num rosto, ainda, tão puro.

quinta-feira, 23 de junho de 2011


São poucas as lembranças que me vêem a mente quando eu penso em você - talvez por que o tempo decidiu as levar, talvez porque você não deixou tantas coisas por aqui. Eu não lamento, muito menos choro quando penso em tal situação.  
É difícil entender a razão de tudo isso. Da ausência, da saudade.
Mas essa falta não dói, ela apenas chama meu nome algumas vezes e me acorda de um sonho qualquer - já me perguntei tantas e tantas vezes porque não me deixa sonhar, mas ela teima em não responder... Uma pena!


Então eu acordo e fico a olhar aquela antiga fotografia que você deixou ali, talvez a única lembrança a qual fez questão de guardar - e eu, de manter.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sofá, papel e prosopopeias.

Sua felicidade era tão simples: se resumia em um sofá, um lápis velho e um bloco de papel. Ela vivia dos seus dois maiores amores: escrever e ver filmes - paixões um tanto batidas para alguns, mas ela não se importava. Seus olhos brilhavam diante das sequência de cenas tão bem planejada; ficava encantanda com tantas cores e (discretamente) dançava ao som das tão sutis trilhas sonoras.

Em uma noite o rapaz de cabelos curtos do outro lado disse a ela, algo que nunca esqueceu - inspiração é para os amadores. E desde então essa frase nunca saiu de si, ficava em sua mente, pensava horas e horas sobre mas nunca saia do lugar.
Não entendeu tamanho incomodo que aquele homem lhe causara. E tentou esquecer.

Escrevia como sempre fazia, usando as mesmas palavras, colocando os mesmo sentimentos - estava mergulhada numa monotonia, estagnada naquele mesmo mundinho a qual fez questão de se prender. E lá ficou, deixou de lado aqueles surtos onde novas frases lhe sussurravam nos ouvidos ou novas palavras vinham lhe fazer companhia.

Mas naquela manhã, certa de que a Rotina lhe acordaria para o café, quem bateu-lhe a porta foi outra - sempre tão imprevisível, recebeu um bom dia da tão amada Inspiração.
Com ela passou o dia inteiro e em outro pequeno mundo visitou. Foi se deitar e a viu sair no meio da noite fria.
Ao fim de tudo, com seu Travesseiro, sempre tão quieto, admitiu - não havia sensação melhor do que ser assim, uma completa amadora.