terça-feira, 6 de setembro de 2011

Amélia

Amélia era uma moça de olhos escuros. Olhos pelos quais não eram fáceis de se esquecer, ficavam na memória e durante algumas noites assombravam alguns corações solitários, porém logo desapareciam durante dia - e poucos sabiam para onde iriam.
Mas, para ser sincero caro leitor, Amélia pouco cuidava de seus olhos Capitu - como alguns ousavam os chamar. O que ela realmente gostava era de seus cabelos.
Nada era mais prazeroso do que deixá-los crescerem durante meses, cultivando cada fio dourado como um frágil amor e então, como alguém sem misericórdia, meter-lhes a tesoura. Ah! Como gostava de ver todas aquelas madeixas espalhadas pelo chão, intactas, fadadas apenas a refletir a luz que ali estava até alguém passar uma vassoura antiga.
Amélia era assim, impresivisível. Uma jovem que pouco reparava nas coisas, andava distraída por olhar os detalhes que poucos notavam nas ruas e a cantar desafinada alguma canção que sua mãe lhe ensinara na infância.
E assim, me sinto obrigado a confessar que, caso em um dia, algum ser desprovido da vergonha lhe elogiar seu olhar, ela ficaria surpresa, pouco esperaria por tal ato. Mas logo esqueceria e voltaria para casa, mexendo em seus cabelos, ansiosa por cortá-los mais uma vez.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Devaneios de uma memória traiçoeira

A idade sempre foi uma das coisas que mais me intrigaram durante a vida.
Não o número em si. Afinal, pouco importa quantos dias foram vividos por ti até hoje. O que realmente me incomoda, em um bom sentido, é essa experiência. E aí eu me perco em devaneios que sabem-se lá quando cessarão.
Vivemos, morremos. E durante a vida, temos nossas mortes; algumas pelas quais todos souberam e outras que nunca saberão. Eu morri de amor uma vez. Mas antes, o desespero enfiou uma faca em meu peito, jorrando o tão impuro sangue pelo chão que meu amor acabara de limpar. Mas logo o pano fez seu trabalho e a água levou meu sangue a um bueiro qualquer - em poucos dias, estava eu ali, vivo a admirar todo esse meu ontem assustador. Cena exagerada, que ninguém faz questão de lembrar. Isso tudo faz parte daquela coleção de dias que não lembramos, que quase passam despercebidos. Então por que me lembro disso até agora? Eu disse quase, quase não lembramos. Não disse? Essa foi mais uma excessão.
Eis que chego ao ponto que tanto me intrigou. A memória é traiçoeira, facilmente nos engana, dizendo que esta será eterna. Agora, eu mal lembro o nome daqueles que vieram me visitar, só porque não levanto há um tempo. Essa gente preocupada....Mas eles são jovens, lembrarão meu nome durante a vida toda deles, a não ser quando estiverem aqui, deitados nesses lençóis tão macios.

Foi a Idade quem me trouxe para cá. Me carregou durante todo esse tempo em seus braços, sem me deixar fugir uma vez se quer. Quisera eu ser tão forte assim... eternamente. Bobagem! Aqui está ela, me vendo ter esses pensamentos dos quais ninguém terá interesse de ler - muito menos de compreender. Fiz um único pedido a ela: que me trouxesse aquela bolsa, cheia da minha memória. Mas a tola, sempre tão egoísta, fez questão de soltar numa esquina qualquer. Ela, agora, sorri para mim, mas eu mal consigo lembrar o seu nome.