quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Devaneios de uma memória traiçoeira

A idade sempre foi uma das coisas que mais me intrigaram durante a vida.
Não o número em si. Afinal, pouco importa quantos dias foram vividos por ti até hoje. O que realmente me incomoda, em um bom sentido, é essa experiência. E aí eu me perco em devaneios que sabem-se lá quando cessarão.
Vivemos, morremos. E durante a vida, temos nossas mortes; algumas pelas quais todos souberam e outras que nunca saberão. Eu morri de amor uma vez. Mas antes, o desespero enfiou uma faca em meu peito, jorrando o tão impuro sangue pelo chão que meu amor acabara de limpar. Mas logo o pano fez seu trabalho e a água levou meu sangue a um bueiro qualquer - em poucos dias, estava eu ali, vivo a admirar todo esse meu ontem assustador. Cena exagerada, que ninguém faz questão de lembrar. Isso tudo faz parte daquela coleção de dias que não lembramos, que quase passam despercebidos. Então por que me lembro disso até agora? Eu disse quase, quase não lembramos. Não disse? Essa foi mais uma excessão.
Eis que chego ao ponto que tanto me intrigou. A memória é traiçoeira, facilmente nos engana, dizendo que esta será eterna. Agora, eu mal lembro o nome daqueles que vieram me visitar, só porque não levanto há um tempo. Essa gente preocupada....Mas eles são jovens, lembrarão meu nome durante a vida toda deles, a não ser quando estiverem aqui, deitados nesses lençóis tão macios.

Foi a Idade quem me trouxe para cá. Me carregou durante todo esse tempo em seus braços, sem me deixar fugir uma vez se quer. Quisera eu ser tão forte assim... eternamente. Bobagem! Aqui está ela, me vendo ter esses pensamentos dos quais ninguém terá interesse de ler - muito menos de compreender. Fiz um único pedido a ela: que me trouxesse aquela bolsa, cheia da minha memória. Mas a tola, sempre tão egoísta, fez questão de soltar numa esquina qualquer. Ela, agora, sorri para mim, mas eu mal consigo lembrar o seu nome.

9 comentários:

Morgani disse...

Que texto mais lindo.. Essa parte sobre morrer de amor inchou meus olhos.
Meu maior medo com o tempo, é de ser esquecida. Sinto que tenho que fazer algo para que isso não aconteça!
Eu sei q isso não tem nada a ver com o assunto, mas me lembrou sobre coisas q as pessoas não estão interessadas em saber sobre você, idade, tempo, vida e coisas do tipo.
E eu realmente me interessei por esse post, me identifiquei tanto com ele! :)

Debbys disse...

Gente, que isso!! Como consegue escrever algo assim?? Admiro muito viu! Ficou muito perfeito, feito aqueles contos que lemos de escritos bem importantes... =]

bjinhusss

Fernanda. disse...

Ficou lindo seu texto! Quase chorei rsrs. E me identifiquei, com algumas partes sobre eu agora, e outras sobre eu antes. Beijos!

Gabriela Freitas disse...

maravilhoso, gosto muito daqui, adorei o novo banner.

andressa n. disse...

nossa :o muito bom o texto, otima perspectiva.

Renan Mendes disse...

Mal se lembrar faz parte, normal. Quisera eu ser anormal...

Laryssa Guimarães disse...

Gosto da maneira que você faz com que meus pensamentos tomem rumos diferentes. Como assim? Começo a ler o seu texto achando que ele me levará num certo lugar e, de repente, suas palavras mudam o caminho dos pensamentos, levando-os para um outro lugar diferente daquele que pensei que chegaria. Sorrio quando isso acontece. E eu gosto.
Não preciso dizer que seu texto está lindo porque qual texto seu não é belo? Nenhum.

Luísa disse...

"A memória é traiçoeira, facilmente nos engana, dizendo que esta será eterna."

Eu sou uma eterna vítima da memória.
Adorei o post.

Tiane Fróes disse...

"Ela, agora, sorri para mim, mas eu mal consigo lembrar o seu nome."

Amei, gosto muito dos finais marcantes assim. Gostei bastante mesmo! Parabéns.