terça-feira, 31 de janeiro de 2012

8hs

Há tanto tempo que não forçava minha mente a reavivar certas lembranças. Confesso que muitas dessas, quando assim faço, são as piores - e, se algum dia, alguém entender o por quê de um pobre velho como eu gostar de (re)sentir sua dor, por favor, avise-me.

Ela me beijou como sempre beijava antes de dormir (é incrível como uma mulher consegue fazer isso tão apaixonadamente depois de tantas e tantas décadas). Eu a olhei dormir, com aquele inspira-expira tão vagaroso, como sempre amei admirar. Era a nossa tradição noturna. Tão sistemática. Tão rotineira. Tão amável.
Eis que meu tão infalível relógio biológico me acordou, dando início ao desinteressantíssimo ritual matinal que mal ouso a descrever. 
E essa manhã ordinária pareceu nunca encontrar seu fim. O sol continuava estagnado, sonolento por entre as seis da manhã. Até que o meu leal relógio, sussurrou-me.
O ritual, enfim, foi quebrado. A tradição mantida fielmente todas as manhãs tinha sido rompida. Assim, minha alma.

E o que um velho como eu, que pouco tem a fazer no seu dia a dia, faz aqui, escrevendo em seu tão velho, tão querido bloco?
Ainda espero o Sol despertar, às oito, acordando consigo a outra parte de minha alma que lá ficou adormecida, respirando tão lentamente como nunca se cansara de fazer.