terça-feira, 12 de junho de 2012

O teto sem cor da noite

- Jamelina, meu amor...
- O que é que te tira o sono dessa vez, Jorge?
- Não sei, minha querida, já faz alguns dias que ando assim, a encarar o teto sem cor da noite, abrindo e fechando os olhos sem ter porque.
Jamelina silenciosamente virou-se na direção do marido, levantou a cabeça a fim de enxergar algo em seu rosto com a luz amena que vinha da rua, mas nada pode ver. Deitou-se novamente e ficou a encarar o teto sem cor da noite.
- Jamelina?
- Não te entendo Jorge... Essas tuas rugas parecem não condizer com o teu coração.
‘Coração jovem, parece que tão pouco sabe da vida.
- Agora eu que não entendo o que dizes, meu amor. Eu amo as tuas rugas, nunca reclamei delas uma vez se quer!
- Pare de bobagem, velho querido. Tem tristeza no teu coração, dá pra sentir.
- Ah Jamelina, como podes me conhecer tão bem assim? Mal eu sei porque essa maldita tristeza afoga meu peito.
- Venha cá, meu amor.
Jorge foi, esquecendo do breu que cobria o quarto e tentava esconder aquelas três ou cinco lágrimas que escorriam, e afogou-se no peito de sua eterna Jamelina.
A dor do tempo bateu em sua porta, as angústias de um devaneio qualquer lhe atormentou e deixou o homem de rugas nem tão sábias assim perdido em seu próprio sentido. Jamelina não sabia muito bem o que aquelas gotas que caiam em seu braço significavam e passou aquela noite sem dormir, escutando o seu velho respirar de forma nervosa, sem saber ao menos o que pensar. Ficou com medo e suas rugas, assim como de seu amado, exalavam também as preocupações tolas daquela noite, daquela (desta) vida.